Tuesday, April 10, 2007

Djodje: “Sempre TC é o meu contributo à música cabo-verdiana”



“Sempre TC”. Eis o título do récem-lançado disco de Djodje, cantor cabo-verdiano, que aos 17 anos põe no mercado o seu primeiro trabalho discográfico a solo. Em entrevista ao asemanaonline, o jovem artista fala do seu percurso e afirma ser este álbum apenas o começo de longos anos de contribuição para a música cabo-verdiana.




Entrevista por: Sílvia Frederico

Djodje, fala-me um pouco do teu CD, “Sempre TC”.

É um disco composto por 12 faixas, todas inéditas, feitas por mim e pelos meus amigos e colegas do grupo TC. O repertório é composto por mornas, coladeiras, rap e algumas misturas. Este CD tem influências de músicas estrangeiras, mas considero ser um álbum de músicas cabo-verdianas. Esta é a minha forma de fazer a música cabo-verdiana. Não é tradicional, mas é cabo-verdiano. Por outro lado, fala muito do amor e das vivências de Cabo Verde. Não significa que vivi tudo aquilo, mas aquilo que observamos - eu e os outros elementos do grupo TC - no dia-a-dia do nosso povo e nas relações amorosas dos nossos amigos e conhecidos. Sempre TC é apenas o começo do meu contributo à música cabo-verdiana.

Disseste que o repertório é composto por mornas, coladeiras e que têm influências de músicas estrangeiras. Não é o que o público está acostumado a ouvir nos seus espectáculos.

É verdade. É um disco mais para ouvir do que para dançar, embora ache que seja “dançável”. Em Cabo Verde não estamos acostumados a dançar este tipo de ritmos mais lentos.

O disco já foi lançado na Praia, primeiro no Tabanka Mar e depois na discoteca Bomba H. Nas duas vezes o público manifestou-se de bom agrado com o CD. Esperavas essa recepção, tendo em conta que o estilo musical adoptado nesse trabalho não é o que o público está acostumado a ouvir: o zouck?

Fiz um disco pensando no meu público, que é maioritariamente jovem. Precisamos abrir a nossa mente para coisas novas. É o que eu disse antes: não é tradicional mas é música cabo-verdiana. Fiquei surpreendido, porque mesmo escutando pela primeira vez as músicas, cantaram comigo, dançaram e acompanharam os shows em bom ritmo. É uma boa recepção. Percebi que estavam mesmo a gostar, a vibrar.

Houve participações especiais do Heavy H, Dabs Lopes e do angolano Don Kikas. Porque essas escolhas?

Em primeiro lugar, porque são as pessoas com quem tive os meus primeiros contactos quando iniciei a minha carreira em 2001 com o grupo TC. Em segundo, porque me ensinaram muito desde essa época. Estão muito envolvidas na minha carreira. O Don Kikas, por exemplo, conheci-o em 2001 no festival da Baía das Gatas. Tornámo-nos grandes amigos. Ele ensinou-me muita coisa. O Heavy H, sobretudo, me ensinou coisas que eu nem sabia que existiam no mundo artístico: enfrentar as barreiras e insistir sempre. Esses músicos me ensinaram a ultrapassar os obstáculos. Mesmo os que não estão no disco, como o Zeca Couto, Kizó, Paló, entre outros.






O Djodje iniciou com o TC. O que aprendeste durante esses cinco anos no grupo?

Muita coisa. Acho que se aprende muito mais com as pessoas da mesma idade. Enfrentamos os mesmos problemas, temos as mesmas desilusões, as mesmas alegrias, enfim, partilhamos as nossas vivências. Eu e o TC vivemos uma relação de amor. Esforçamo-nos a cada dia que passa com muitos ensaios, até ultrapassarmos todos os problemas. Procuramos todos juntos o sucesso. Penso que vamos conseguir isso.
Vamos conseguir... será por isso mesmo “Sempre TC”?

É por isso mesmo. É uma mensagem que quis passar ao público de que o grupo ainda existe e que não vai deixar de existir, graças a Deus. Eu gravei a solo mas ainda faço parte do grupo. Por outro lado, a maior parte das composições deste disco foram escritas pelos elementos do TC. O grupo está apenas de “longas” férias.

E quando é que acabam essas “longas” férias?

Penso que dentro em breve. Dois dos elementos estão a estudar no Brasil e um em Portugal. Eu e mais um outro integrante estamos aqui em Cabo Verde. Mas acho que dentro em breve estaremos todos juntos para retomarmos as nossas vidas, pois já estão quase a terminar os cursos. Até lá temos que nos contentar com um mês ou dois meses de folga quando estão aqui.

O Djodje já tem um projecto novo?

Por enquanto, não. Acho que o próximo disco será com o TC.
É para breve?Nada ainda de concreto. Temos ideia, sim, de gravar. Talvez daqui a um ou dois anos. Não depende só de mim. Como já disse, o grupo está separado por razões que não podemos questionar. Os estudos estão sempre na nossa mente. Nunca pensamos em deixar de estudar. E acho isso bom, porque o nosso futuro está aí. Temos que esperar o nosso reencontro.

Para já não pensas em seguir os estudos tal como os outros elementos da banda?

Vou terminar no próximo ano o 12º ano de escolaridade. Depois disso, quero entrar numa universidade.

Para que área?

Ainda não defini muito bem o que quero. Mas penso muito em fazer algo relacionado com a música. Quero conciliar os estudos com a minha carreira. Gestão musical, quem sabe.

O Djodje nasceu no seio da família “Marta”, toda ela virada para a música. Contudo, não posso deixar de perguntar: Como nasceu o teu amor pela música?

Na minha família todo o mundo é artista ou tem alguma ligação com a música. Eu cresci vendo o pai nos Tubarões. Há o Tonecas Marta, Maiúca Marta, Ineida Marta, enfim, não havia como não ter um gostinho pela música. Desde os oito anos que me atrevia a cantar nas tocatinas da família. A música faz parte do meu dia-a-dia.

Porém o Djodje só teve o seu primeiro aparecimento aos 11 anos...

É. Eu só ousei subir ao palco com o grupo TC. No início eu só fazia o Backvocal. Aos 12 anos fizemos a primeira participação no Verão 2001.
A banda TC deu o pontapé na sua carreira. Como é que nasceu o grupo?Foi uma brincadeira. Na varanda da minha casa eu o meu primo Rick Boy, o meu irmão Peps e mais dois amigos começamos a tocar. Mas eu, como o menor da turma, só cantava uns trechos. Só fazia o coro.

Mas foi o Djodje quem mais sobressaiu. Talvez por ser tão novo?A idade sempre conta. Eu tinha apenas 12 anos. Uma criança a cantar, embora num grupo de adolescentes atrai atenção. É muito bom lembrar isso. Mas o grupo foi tão importante quanto o Djodje.

E como descreves o teu percurso. Hoje já tens 17 anos, muitos espectáculos na carreira e disco a solo. O caminho foi longo?

Muito. Não foi fácil. Tivemos que enfrentar muitos obstáculos, até que hoje tenho um disco gravado. Mas os obstáculos fazem parte da vida artística cabo-verdiana, embora não deva ser um ingrediente para o seu sucesso. A vida não é fácil, mas as pessoas devem contribuir um pouco para que os outros consigam viver também.

Djodje, já participastes em vários discos...

Fiz participações, juntamente com a banda, nos projectos Verão 2001, 2002 e 2003. Participei no Cabo Verde Les Otres, em 2002. A minha última participação foi no CD “Minis” de Heavy H com a música “Sexy lady”. Já actuei também em vários festivais de Cabo Verde, Festival da Juventude de 2005, fiz a abertura para o Show da banda brasileira “Terra Samba”, no Estádio da Várzea, participei na Semana Cultural de Cabo Verde no Luxemburgo, enfim...

Agora a pergunta que não quer calar. O Djode dos 12 anos tinha uma voz afeminada, o que causou algumas críticas. O que podes dizer acerca disso?

Eu era uma criança. Era a voz que eu tinha na época. Não poderia inventar uma voz que eu não tinha. É como agora. Não posso imitar a voz do Djodje dos 12 anos. Cada Djodje tem a sua fase. É um pouco estranho manter a mesma voz. As crianças crescem e passam por fases importantes nas suas vidas.

Djode, és muito jovem e pode-se dizer que já tens uma carreira artística invejável. Que mensagem aos jovens?

A mensagem é insistir sempre, quando se tem algum talento. Não desistir nos primeiros obstáculos. Temos vários jovens com a mesma idade que eu, mas que não tiveram a mesma oportunidade. Isso agora cabe ao Estado cabo-verdiano e às autoridades competentes dar mais oportunidades à sua juventude. Mas é preciso agarrar com força cada oportunidade que aparecer. E lutar, lutar, lutar... sempre.

Criar oportunidades como?

É investir na cultura, sobretudo. Criar uma escola da cultura e da música nacional, de forma a ensinar aos jovens a base da música cabo-verdiana. Porque acho que a música é um pouco complicada. É que nem a matemática, tem que se fazer muitos cálculos. É preciso profissionalizar a música de raiz e não só e levá-la a outros níveis.

Fonte: Asemana On line